domingo, 19 de fevereiro de 2017

Os 25 anos da "Unidos do Cabuxu"

“A Rainha e sua corte no carnaval, beijinhos, beijinhos...”25 anos esses versos levaram a Marquês de Sapucaí ao delírio durante o desfile das Escolas de Samba do Grupo de Acesso. Em 1992, a Unidos do Cabuçu homenageou Xuxa, contando sua história para toda a Passarela do Samba.

Xuxa: Rainha no Palácio de Cristal do Planeta Cabuçu

Foi a segunda vez que Xuxa inspirou um tema de samba enredo, mas a primeira numa escola de samba. Em 1989, o samba enredo “A Festa da Xuxa, a Rainha dos Baixinhos” garantiu o segundo lugar ao bloco carioca Unidos do Cabral. O ano de 1992 veio se igualar ao de 1989 no número de participações/referências a Xuxa dentro do universo do samba. Se em 89 tivemos Xuxa desfilando pela Tradição, pela Beija-Flor e sendo tema do samba enredo do bloco já citado; em 92 tivemos Xuxa desfilando pela Beija-Flor, sendo lembrada no desfile da Tom Maior (Carnaval de São Paulo) e ainda reinando como tema da Unidos do Cabuçu.

Em 1992, a Escola de Samba Tom Maior (SP)  levou a TV para a avenida e claro que o Xou da Xuxa tinha que ser o representante dos programas infantis. Xuxa não foi, mas a nave sim.


Unidos do Cabuçu no mundo de Xuxa
A escola de samba, com sede em Lins de Vasconcelos, no Rio de janeiro, ficou famosa pelos seus sambas-enredo em homenagem às personalidades vivas da TV e cultura: Beth Carvalho, Roberto Carlos, Os Trapalhões, Milton Nascimento, Adolpho Bloch. Claro que Xuxa não poderia estar fora dessa lista.

Beth Carvalho (1984), Roberto Carlos (1987)  e Os Trapalhões (1988): homenageados da Cabuçu

Em 1991, a Cabuçu anunciou que a homenageada para o ano seguinte seria Xuxa. O convite para o desfile partiu da então presidente da escola, Therezinha Monte e foi logo aceito pela loira. A partir daí, a Unidos do Cabuçu experimentou o que era estar dentro do grandioso universo de Xuxa. Homenagear personalidades não era novidade, mas nenhuma delas tinha o poder de virar notícia tão rápido. Além das participações no programa matinal da loira na Rede Globo, a escola ainda foi levada para o “Show de Xuxa”, na Argentina.



Jornais e revistas noticiavam com destaque a ligação da escola com Xuxa.
Xuxa marcou presença no aniversário de 46 anos da Escola, visitando a quadra e dançando o samba enredo no final de 1991. Era hora de começar a esquentar os tamborins para o momento oficial.

Na quadra da Escola, Xuxa canta o samba em companhia do puxador Di Miguel

Matérias sobre os desfiles do Grupo I existem desde sempre, mas no ano de Xuxa, as atenções voltaram-se para ela e consequentemente para a Cabuçu. O jornal O GLOBO deixou isso bem claro:

Momo destronado por rainha loura
Momo que a perdoe, mas quando a Unidos do cabuçu surgir na Marquês de Sapucaí, o cetro e a coroa passarão às mãos de uma rainha loura, de olhos azuis e corpo esbelto. Xuxa será homenageada com o enredo "Xuxa, a realidade vira sonho no xou da Cabuxu".

A própria escola sabia disso e naquele ano a Cabuçu virou a Cabuxu ou Cabuxuxa, se preferirem.


Xuxa no mundo da Unidos do Cabuçu

O enredo
Criação de Paulo Afonso de Lima com colaboração de Mara Alves, o enredo “Xuxa, a realidade vira sonho no Xou da Cabuçu” apresentou a história de Xuxa como um conto de fadas do ponto de vista dos contadores de história da época medieval.

Paulo fez uma apresentação (bem) rebuscada do enredo:

A filosofia do nosso enredo está totalmente apoiada numa visão conceitual de conto de fadas. Ao se transpor à passarela do samba a vida de Maria da Graça Xuxa Meneghel a "nossa rainha", a realidade que se transforma, ou seja, a visão de um contador de histórias teria ao transpor para uma linguagem de literatura dirigida a infância, a biografia de um personagem do século XX, nos parece é a característica principal de todo desenvolvimento do enredo.

Na verdade, analisada de um ponto de vista puramente literário, a vida de Maria da Graça Xuxa Meneghel tem todas as tramas, evoluções, princípios, meio e fim, "ou melhor dizendo o resultado" do autentico clássico da literatura infantil. Essa curiosa e encantadora característica nos permitirá ampliar, sob o ponto de vista de infância, a realidade.

Dos eventos típicos desta possibilidade são as partes do enredo que focalizam a infância, a fase de modelo de nossa homenageada e seu mundo do sucesso.

Nunca se viu tanta criança num ensaio de Escola de Samba


O samba-enredo
Composição de João Ferreira ,Orlando Negão, Sereno e Robertinho da Matriz, o samba da Cabuçu tem um refrão marcante, daqueles que você se pega cantando sem nem saber porquê.
Como já foi dito, o trilho é como um contador de histórias transportaria para a era medieval a história da rainha Xuxa e seus súditos.



A ideia é bastante interessante e bem executada, mas existe um pequeno deslize: se é a visão medieval com todas as figuras típicas desses contos: rei, rainha, dragão, criaturas mágicas (botos e moderninhos), a corte, os súditos... como explicar a nave? Ok, a nave é tão indissociável de Xuxa quanto o Ilariê, mas não seria mais fiel algo como “sua carruagem de ilusões”? Até porque não há nenhuma nave nas alegorias do desfile, mas já vamos falar disso.

As referências da letra são claras e vão de personagens às canções de Xuxa:
1.      Boto Rosa” – alusão à canção homônima lançada em 1990,
2.      Moderninhos” – o famoso boneco de espuma falante dos sorteios do Xou da Xuxa;
3.      Baixo Astral” – o inesquecível vilão do filme Super Xuxa contra Baixo Astral (1988);
4.      A vida é um doce” – verso de Doce Mel, primeiro sucesso de Xuxa em 1986;
5.      A lua é de cristal” – referência dupla: canção e filme “Lua de Cristal” de 1990
6.      Ilariê, Ilariê no Carnaval” – dispensa comentários, mas o mais interessante é que esse foi um pedido de Xuxa: “logo comecei a viajar no enredo e achei genial, pois justamente o que idealizei foi o que a escola pensou e, entre as minhas sugestões, pedi que a palavra “ilariê” estivesse no samba-enredo” – contou a loira ao jornal O Globo, em 23/02/1992.
7.      Beijinhos, beijinhos, tchau, tchau, tchau” – quem não conhece o bordão clássico de Xuxa?



O desfile
A Unidos do Cabuçu foi a 11ª escola a desfilar na passarela do Samba no dia 29/02/1992 e trouxe seus 3 mil integrantes divididos em 24 alas e 5 carros alegóricos. O desfile se dividia em cinco momentos.
Nota do blog: As partes em negrito após os títulos se referem à sinopse original escrita pelo carnavalesco Paulo Afonso de Lima.

A Cabuçu reverencia a majestade e se apresenta como Cabuxu, Cabuxuxa e Cabuxou


1.    Era Uma Vez... CabuXuxa
Contadores de estória contam através dos tempos a imortalidade vários personagens infantis que se fazem presentes no cortejo do sonho da mais nova lenda que ao lado deles já ganhou no mundo da infância o seu lugar.
A Comissão de Frente era composta por 13 integrantes que representavam os contadores de histórias da época medieval no Reino da Fantasia. Os mais atentos vão perceber que a paleta de cores remete ao Arco-Íris – sucesso musical de Xuxa de 1988: “toda cor tem em si, uma luz, uma certa magia”.

Comissão de frente: contadores medievais de histórias com as cores do arco íris

No Carro Abre-Alas – HISTÓRIAS INFANTIS – ergue-se o Castelo dos contos infantis. Lá estão personagens clássicos: o Príncipe (o ator Flávio Silvino), Branca de Neve (Angel Mattos), Cinderela (a ex-Paquita Andrea Veiga), e também personagens do mundo de Xuxa: a tartaruga Praga e o contrarregra Russo. 


Os saudosos Russo e Praga no carro abre-alas

A presença de Dengue foi noticiada, mas em momento algum das transmissões televisivas o personagem aparece. Nas laterais flâmulas já mostram que a escola se rendeu ao encanto da homenageada: ao invés de Cabuçu está escrito Cabuxuxa, Cabuxu e Cabuxou.

Flávio Silvino, Andrea Veiga e Angel: fantasias pouco inspiradas

Segue-se uma ala composta totalmente por casais de mestres-sala e portas-bandeira. Cada casal empunha a bandeira de um país para onde Xuxa expandiu seus domínios, vemos bandeiras de toda a América Latina, Espanha e até mesmo dos Estados Unidos, país que seria “alvo” da expansão efetivamente em 1993.

Globalização? Não, é a Xuxalização do planeta


2.    Reino do Rio Grande do Xul
Maria da Graça Xuxa Meneghel menina dos cabelos dourados, nascida em Santa Rosa, Rio Grande do Sul tinha um sonho que parecia impossível: ser a própria Branca de Neve.

A infância de Xuxa é retratada através do segundo carro alegórico – RIO GRANDE DO SUL –, um imenso chimarrão ao centro ladeado por cavalos e integrantes vestidos com referências às vinícolas do sul. Cachos de uva e predominância das cores verde e roxa. No alto do carro, um destaque vem trajando uma roupa típica dos pampas gaúchos.

O Carro do Rio Grande do Sul: vinho e chimarrão

A ala das baianas recebeu o nome de “Ala Terra Mãe”. Nas cabeças, as baianas traziam cuias de chimarrão. Curiosamente, na mesma entrevista que Xuxa conta que pediu a inclusão da palavra “ilariê” no samba enredo, ela diz que também pediu “que as baianas viessem vestidas de doce representando o doce da vida”. É, não deu certo, e as senhoras mais rodopiantes da avenida trouxeram algo nada doce.

Pelos rodopios, tinha vinho nesse chimarrão, hein, dona?


3.    Viagem ao Reino do Mar Azul
Por volta do ano de 1970 DC a Branca de Neve loura, chega trazida pelos pais a um reino distante: as terras da Guanabara. Imensa poça azul (poça azulada que o samba fala) como os seus olhos e lá, neste rincão tão diferente de sua cidade natal o doce da vida lhe reserva, outras surpresas.
A menina loura, do dia para noite, ingressa no mundo nobre da moda, das condessas e condes dos cosméticos, dos barões e baronesas dos finos perfumes, dando muitos passos em direção a um temido, mas, ao mesmo tempo, fascinante personagem: o dragão do xuxexo.

As coisas começam a acontecer na vida de Xuxa quando ela se muda para o Rio de Janeiro. Logo depois do segundo carro aparece uma ala de “presos”. À frente estão Roberta e Mariana Richard, as Irmãs Metralha do Xou da Xuxa. Não há menção a isso na apresentação/sinopse do desfile, será que a ideia era mostrar a criminalidade do reino do Mar Azul?

As Metralhas ganharam uma ala só para elas, mas qual o sentido disso mesmo? 

O terceiro carro – CAMARIM – é uma imensa penteadeira com seus perfumes, frascos e porta-joias. Aqui encontramos o “Rei do Glamour” citado na letra. Entre as alas, destacamos: Moda, Cosméticos, Joias e Flash.

O Carro Camarim: potes de cosméticos, espelhos e joias

Todas em referência ao sucesso de Xuxa como modelo e manequim nas passarelas e revistas de moda. Uma ala só de crianças – Ala Bolas – traz as garotas vestidas como modelos dos anos 80.

As crianças representando a Xuxa modelo e manequim dos anos 80


4.    No Império dos Baixinhos
E hoje a Cabuçu exalta a figura mais importante no reino infantil mundial. O "Planeta Cabuxu" que a recebe de braços abertos, 19 casais de mestre-sala e porta-bandeira mirins representam os países onde hoje esse sucesso é notório e saúdam e coroam a "Rainha Universal das Crianças".

O quarto carro – CÂMERA DO XUXEXO – retrata a consagração de Xuxa como estrela da TV, das revistas, do cinema. No carro, o cinema é a maior referência fica por conta da presença do ator Guilherme Karan, que volta a incorporar o vilão Baixo Astral.

Guilherme Karan voltou a encarnar o Baixo Astral no maior astral

Ao centro, um destaque apresenta a fantasia Lua de Cristal, outro sucesso de Xuxa nas telas e a direita a fantasia Boto Rosa numa alusão à canção de Xuxa.

Carro Câmera do Xuxexo: filmes nos destaques e
os LPs representando o sucesso na indústria fonográf
ica

À frente do carro, surge uma ala inteiramente composta por 80 crianças surdo-mudas, que representam o Boto Rosa – outro pedido de Xuxa que queria que seus baixinhos especiais também estivessem representados no desfile. Nas demais alas encontramos dezenas de Moderninhos, a única referência mais explicita ao programa de TV. 

Um Moderninho enlouquece muita gente, imaginem algumas dezenas...

As Paquitas e os Paquitos vêm sambando no chão com fantasias que se assemelham aos seus uniformes “de gala”.

Quem disse que loira não samba? Se reclamar, vai ter sete!


5.    A Super Xuxa no Xou da Cabuçu
E neste fantástico mundo do "planeta Cabuxu", entre fadas, príncipes, princesas e personagens infantis, câmera, luzes ofuscam o brilhar azul dos olhos da nossa "menina".

Encerrando o desfile, claro, Xuxa! A loira veio no seu papel mais conhecido: Rainha. O último carro – PALÁCIO DE CRISTAL -  concluía a história mostrando “a Rainha e sua corte no carnaval”.
Xuxa estava acompanhada de 30 crianças e, visivelmente emocionada, preferiu não sambar muito, mas distribuiu uma infinidade e de beijinhos e tchau-tchaus e sempre se curvava agradecendo o carinho do público nas arquibancadas.

Xuxa não sambou, mas foi fiel ao enredo: beijinhos e tchau-tchaus aos montes


À frente do carro principal, cerca de 100 crianças da Fundação Xuxa Meneghel compunham uma ala especial.
A bateria da Cabuçu veio com uma fantasia estilizada de Paquitas/Paquitos. A unica ala que permanece presente o tempo inteiro do desfile esperou o carro de Xuxa passar para sair de seu recuo e fechar o desfile sem deixar o ritmo diminuir.

"Mas que bailarinas bateristas, nós somos Paquitas..."


Curiosidades

·        Xuxa foi a homenageada mais jovem da história do Carnaval. À época da homenagem, Xuxa tinha só 28 anos e já era enredo de escola de samba.
·        Dona Alda, mãe de Xuxa, desfilou na ala “Terra Mãe”. Tudo a ver, não é?
·        Outras presenças famosas no Desfile da Cabuçu: a atriz Ângela Leal, na diretoria; Marinara Costa como madrinha da bateria; Eri Johnson, Sandra de Sá, Antônio Pitanga, Tereza Sieblitz e Giovana Gold na ala Flash.

Marinara Costa: mais loira no samba

·        Xuxa quase chegou atrasada para o desfile. Ela errou o caminho do Sambódromo, seguiu pelo Aterro do Flamengo e subiu a Avenida Presidente Vargas, o que a obrigou a atravessar a pé a Marquês de Sapucaí. Dez seguranças protegeram a loira do tumulto.
·        A loira desfilou fantasiada de Rainha, de vestido azul com strass e uma tiara com plumas brancas prendendo os cabelos. A única joia que usou foi um pequeno crucifixo de ouro no pescoço.
·        A revista argentina Gente veio especialmente para cobrir o desfile e fazer uma edição especial com a loira.

A edição da revista argentina GENTE, publicada em março de 1992

·        A escola ficou em 8º lugar na apuração final do Grupo de Acesso com 288 pontos, mas se dependesse de Xuxa a nota em todos os quesitos não seria  menor que "DEZ, NOTA DEZ". Com a palavra, a própria Rainha:


Cabuçu 2016: nova menção a Xuxa

O enredo de 1992 foi tão marcante para a Cabuçu que, no ano passado, a escola transformou seus 70 anos de carnaval no tema de seu samba enredo. O título foi “A festa é nossa e ninguém tasca! São 70 anos de Xou da Cabuçu no Mundo mágico do carnaval”.  Só nesse título estão três dos momentos mais marcantes da escola: A festa é nossa e ninguém tasca – 1986; Xou da Cabuçu – 1992 e Mundo Mágico, em referência ao enredo dos Trapalhões em 1988.

O carnavalesco Edson Siqueira explicou: “O pontapé inicial do enredo se dá a partir do fictício lançamento de uma Edição especial da extinta Revista Manchete, para falar dos 70 anos da Cabuçu. Esta Edição especial seria publicada a pedido de Adolpho Bloch (já falecido) em retribuição à homenagem que a escola fez a ele por ocasião do Carnaval 1991 (“Aconteceu, virou Manchete!”). A partir daí haverá uma viagem pela história da escola através dos sambas em forma de uma narrativa atemporal”.

A capa do número fictício da Manchete que a Cabuçu criou para homenagear seus 70 anos 

A parte da sinopse que refere ao enredo de 1992 é:

Ao longo destes 70 anos, a Cabuçu cantou e contou histórias e estórias. E num mágico universo de ternura, em um sonho colossal, fez da vida um doce, em um turbilhão de cores, se transformou num planeta triunfal, e como numa viagem encantada, brincou o Ilariê no Carnaval, alegrando milhões de corações com a Rainha e sua Corte. Foi um Xou na avenida!

Já no samba-enredo a menção à Xuxa é menor, mas não menos importante:

Eu já morri de rir com os Trapalhões
Roberto Carlos, tantas Emoções
De Sentinela, em Alto Astral
Marcou um X a nave espacial

A Unidos do Cabuçu atualmente desfila pelo grupo B no Carnaval do Rio de Janeiro.


Era uma Vez...

O carnavalesco Paulo Afonso de Lima definiu o objetivo do samba enredo de 1992: “enfatizar a figura de um personagem infantil dos dias de hoje que a todos conquistou. Mostramos a realidade de um futuro próximo quando XUXA passará a fazer parte do mundo do conto de fadas, das maravilhosas estórias que serão contadas através da tecnologia moderna, às gerações futuras”.

Hoje, 25 anos passados, vemos que Xuxa realmente conseguiu a proeza de fazer parte do “mundo de conto de fadas” ao mesmo tempo que é bem real e humana.

Era uma vez, uma história deslumbrante
Um mágico universo de ternura
Contagiou este sonho colossal
Era prenúncio de alegria geral

Os adjetivos da primeira estrofe foram realmente fiéis...
Essa é a história e quem quiser que conte outra! (Bom, a Caprichosos de Pilares fez isso 12 anos depois, mas essa a gente conta outro dia, tá?) 

Literalmente "a Rainha e sua corte no Carnaval"

domingo, 12 de fevereiro de 2017

4 vezes que Xuxa desfilou no Carnaval como convidada

Por: Leandro Franco
O Carnaval está chegando e esse ano teremos Xuxa na Marquês de Sapucaí! São 13 anos longe da passarela do samba e quem convenceu a Rainha a novamente pisar na avenida foi a amiga Ivete Sangalo. Veveta é boa nisso; foi ela também quem convenceu Xuxa a desfilar no carnaval baiano em cima de um trio elétrico em 2006. Naquele ano só deu Xuxa e Ivete nos jornais que noticiavam a folia baiana.

Carnaval com Xuxa e Ivete? Já virou manchete!

Para quem não sabe, a Escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio escolheu Ivete Sangalo como tema de desfile neste ano. O samba-enredo “Ivete do rio ao Rio” vai contar um pouco da história da cantora baiana e como não se constrói uma história sem amigos, claro que Xuxa tinha que estar presente, mas isso é assunto para daqui a pouco.
Xuxa foi tema de sambas enredo por duas vezes: Unidos da Cabuçu em 1992 e Caprichosos de Pilares em 2004, mas hoje vamos falar das participações como convidada especial e essas foram quatro.  Vamos relembrar?


1985 – Beija Flor


Com o samba enredo “A Lapa de Adão e Eva”, o G.R.E.S. Beija Flor de Nilópolis colocou na avenida uma espirituosa versão da história de Adão e Eva. Adão seria o primeiro malandro, Eva a primeira Garota de Ipanema e a serpente seria Madame Satã – famoso transformista do Rio que tinha uma ficha criminal tão grande quanto seu senso de humor irônico. Tudo do Rio foi retratado num paralelo com a história bíblica. A cidade se tornou uma espécie de Sodoma e Gomorra onde o samba reinava e o povo pedia que Deus os perdoasse.
Xuxa veio como destaque num dos últimos carros representando as loiras do samba, numa referência ao verso “vem, loirinha, vem sambar” do refrão. O desfile aconteceu na manhã do dia 18/02/1985 e a escola foi a vice-campeã daquele ano.

Sambando só no dedinho... quem nunca?

A transmissão do desfile foi feita pela Rede Globo e pela Rede Manchete. Mesmo não sendo contratada da casa, a Globo mostrou mais cenas de Xuxa que a Manchete, que tinha a estrela em seu elenco.
Vendo Xuxa em sua fantasia prateada, a gente acaba se lembrando não do samba enredo de 1985, mas sim do samba-exaltação da escola: “É ela, a deusa da passarela / Razão do meu cantar feliz / É ela, um festival de prata em plena pista”.



1989 – Tradição


Em 1988, Xuxa não desfilou, mas foi assistir aos desfiles direto de seu camarote na avenida. Uma escola, a estreante Tradição, chamou sua atenção e esse foi o pontapé inicial para sua segunda participação no carnaval carioca.

Trecho de matéria publicada no Jornal O GLOBO em 05/02/1989


O samba enredo da escola – Rio, Samba, Amor e Tradição – exaltava o Rio de Janeiro com seus principais pontos turísticos e a alegria do carioca. Alegria de cariocas “altinhos” e baixinhos.
Ai, como é lindo a criança / Entrando na dança desse Carnaval (...)
Rio, vem cantar de novo /Sorria, meu povo / Que o Cristo Redentor quer te abraçar

A escola não pensou duas vezes e pôs Xuxa como a “Deusa da Alegria” no alto de um dos seus carros. E bota “alto” nisso! O carro tinha 6 metros!
— Lá de cima do carro tenho certeza de que vou sentir uma enorme vontade de descer. Acho que foi por isso que fizeram um bem alto para mim...

Pulando Sambando na cara da sociedade!

O carro veio após a ala das crianças. Se Xuxa ficou com medo, ela o espantou com sua empolgação, a loira dançou bem mais que na sua estreia na Beija-Flor.
A fantasia lembrava muito os figurinos de show. Não era a Xuxa vestida de Deusa da Alegria e sim a Deusa da Alegria da Tradição vestida de Xuxa.
A Tradição foi a 5ª escola a desfilar no domingo de Carnaval de 1989 (05/02) e ficou em 16º lugar na apuração final.




1989 – Beija-Flor


Acabamos de falar da empolgação de Xuxa durante o desfile da Tradição, certo? Teve mais... Em 1989, Xuxa desfilou também pela Beija-Flor de Nilópolis. Quem não se lembra do famoso enredo-protesto “Ratos e Urubus, larguem minha fantasia!”. A escola sempre acostumada a falar do luxo, dessa vez veio falando do lixo. E onde Xuxa se encaixaria nisso tudo?
Joaosinho Trinta já tinha tudo em mente:

“Xuxa virá no carro dos brinquedos. A mensagem desse carro é uma das mais importantes do enredo da escola, "Ratos e urubus, larguem a minha fantasia": na parte de baixo estão as armas de brinquedo, que são o lixo, pois é uma grande maldade presentear as crianças com essas coisas agressivas. No alto do carro está a Xuxa, representando o que a criança precisa, como carinho, atenção e amor.”  (Jornal O GLOBO – 05/02/1989)

Vou desfilar sim! E se reclamar, desfilo duas vezes!


Viram só? Um verdadeiro LUXO.
Duas coisas nos chamam muita atenção nesse desfile: a roupa de Xuxa que é quase igual à do desfile na Tradição e os elementos do cenário do Xou da Xuxa  de 1988 que compunham o carro alegórico: o escorregador do Xuxo, o Painho na parte traseira. Ah, estavam lá também as Paquitas e o Dengue.  Beija-Flor deu, literalmente, um XOU na avenida.


A escola desfilou já na manhã da segunda-feira de carnaval (06/02/1989) e, assim como na primeira vez que Xuxa desfilou, ficou com o vice campeonato. 



1992 – Beija-Flor


A escola de Nilópolis realmente gostou de ter Xuxa entre seus destaques. Pela terceira vez, a Rainha foi convidada a desfilar. E dessa vez a escola quis agradar toda sorte de baixinhos, chamou todo o reino infantil para a Marquês de Sapucaí.
O enredo da vez era “Há um Ponto de Luz na Imensidão” e tratava dos pontos de luz que se  irradiam pelo espaço e a caixa mágica que transforma esta energia luminosa em imagens: a televisão. Tudo relacionado à TV foi retratado no desfile, mas o que nos interessa estava no Carro Infantil, o sétimo.
Antecedido por alas que traziam mais referências ao universo televisivo infantil (Sitio do Pica pau Amarelo e desenhos da Disney), o carro era o sonho de todo baixinho que cresceu na frente da TV nos anos 80: Xuxa, Angélica e Mara juntas.

Os nomes das fantasias? Táxi Lunar, Rainha Intergaláctica e Curumim Estelar

E ainda teve o Carequinha...

O único carro que ensina a hierarquia no reino dos baixinhos...

Xuxa no alto, toda Rainha-futurista, frente a um imenso disco voador; na parte de trás, Angélica num balão que se movimentava de um lado a outro e na parte de baixo um trem com Mara a sua frente. 



Fernando Vanucci, na época comentarista da Rede Globo, chegou a dizer:
“O mais interessante nesse carro é que nem a Xuxa vê a Mara, nem a Mara vê a Xuxa, nem a Xuxa vê a Angélica e nem a Angélica vê a Xuxa”. Bom, a Angélica ninguém viu mesmo, o tal balão se mexia de um lado a outro, mas nem assim deu para ver a loira da pinta. Devia ter vindo de taxi... mas ela estava lá, gente.

Se você apareceu na telinha, dê uma risadinha...

Beija-Flor foi a última escola a desfilar no domingo do Carnaval 1992 (01/03) e a 7ª colocada na apuração final.

2017 – Grande Rio
Essa ainda não aconteceu, mas já temos informações de como será a participação da loira no Carnaval 2017 e o pouco que sabemos já nos deixou com muita vontade de ver Xuxa brilhando de novo na Sapucaí.

Desfile das Campeãs 2005: Xuxa, Sasha e Luciano recebem Ivete no camarote da Grande Rio

Se em 2005, Xuxa recebeu Ivete no camarote “Grande Rio / Nestlé”; agora é a vez da baiana receber a loira, mas na avenida. A notícia de que Ivete tinha planos de convidar Xuxa para o desfile começou a aparecer em setembro de 2016.


Notícia publicada na coluna Beira Mar da Veja Rio, em 10/09/2016


“Convite feito, convite aceito”, assim funciona a amizade de Xuxa e Ivete. Só que o enredo da Grande Rio não vai falar da vida pessoal de Ivete, então como Xuxa vai aparecer? 

Xuxa será a Eva! A Eva de "Adão e Eva" ou Eva da Banda Eva? Bom, um pouco das duas...
Antes da carreira solo, Ivete foi vocalista da Banda Eva entre os anos 1993 e 1998. Em 1997, a banda lançou seu primeiro CD ao vivo e uma das músicas que fez mais sucesso foi “Eva”, uma regravação do sucesso de 1983, da banda Rádio Táxi (que, por sua vez, era uma versão da música Eva, do cantor italiano Umberto Tozzi, de 1982). O fato é que a regravação de Ivete foi tão bem sucedida que muita gente pensa que essa música é da Banda Eva.



Xuxa já contou que podemos esperar uma Eva futurista, que não vai mostrar nada. Achou estranho? Não é, não. A canção fala de um mundo já apocalíptico (“Olha bem, meu amor, é o final da odisseia terrestre”) em que somente o autor e sua amada vão escapar “na última astronave”. E se somente ele e a amada vão escapar, é provável que eles tenham que recomeçar o mundo num lugar “além do infinito”. Quem começou a humanidade então? Adão e Eva.


Pronto! Já queremos a Xuxa de Eva, voando bem alto e além do infinito, numa astronave cheia de controles e botões antiatômicos.

Pessoal, pode deixar que se a fantasia e o carro saírem tão cheios de referências como a música, a gente mostra tudinho aqui para vocês, tá?     

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Vídeo Exclusivo: Planeta Verão - Clipe de encerramento

A temporada verão 2017 se encerra no Xuper Blog. Ano que vem tem mais drops de verão. Antes, curta nosso vídeo de encerramento! Planeta Verão, ouou... ☀

 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Diário de Xuxa - Reações comuns de uma garota extraordinária.

Por: Leandro Franco

O ano de 2017 já começou trazendo mudanças na vida de Xuxa. Para quem não sabe, ou não se lembra, desde novembro de 2014, Xuxa tinha uma coluna na revista Viva! da Editora Caras, onde ela contava suas impressões, relatos e memórias, dividindo seus sentimentos com os leitores da publicação.

X da Questão: mudou a revista, a loira continua a mesma!

A revista Viva! encerrou suas atividades em outubro do ano passado e os leitores cativos da loira ficaram “órfãos”... mas foi por pouco tempo! Em janeiro, a revista Contigo! convidou e Xuxa aceitou: a coluna X da Questão migrou e reestreou na nova casa, na edição 2157.
Engana-se quem pensa que escrever suas impressões e sentimentos seja algo novo para Xuxa.  Graças a um dos vídeos do Canal X tomamos conhecimento que nos primeiros anos de vida de Sasha, a mãe coruja fez questão de montar um livro com relatos para sua baixinha. “É como se fosse um diário, gente! Um diário que eu fiz pra Sasha ler, de tudo que acontecia, de tudo que eu fazia, TUDO! Tá tudo aqui!” – contou Xuxa surpresa ao reencontrar o “presente” que nem ela mesma lembrava ter feito.

O Diário de Sasha: só no Canal X

E se formos mais longe? Bem mais longe? Será que Xuxa se lembra que ela também registrava seu dia-a-dia e emoções lá no fim da sua adolescência, no início dos anos 80? Quando mostrou o livro de Sasha, Xuxa leu a introdução que escreveu para a filha: “Sasha, comecei a escrever esse livro imaginando um dia você folheando suas páginas, lendo e dando boas risadas”. E a própria Xuxa? Como ela reagiria relendo suas próprias anotações e confidências juvenis?

Nos anos 80, a cabeça de Xuxa era outra, ela estava no auge como a modelo mais requisitada do país, havia uma aura de sex symbol criada ao seu redor, ela já movimentava a indústria publicitária, trabalhava – e muito! – mas era também uma jovem de 17, 18 anos às voltas com o encantamento da profissão de modelo, o começo de um amor mais sério e, infelizmente, começando a perceber que as pessoas não são tão boas como parecem. Tudo devidamente registrado em seu caderninho.

Diários de Xuxa: confissões comuns de uma pessoa incomum



“Serei sempre seu confidente fiel, se seu pranto molhar meu papel...

As publicações da época faziam alarde sobre a modelo mais cobiçada, que transpirava sensualidade e mexia com a cabeça dos homens. Criou-se um vulcão, que na verdade era pura calmaria. E uma das primeiras a mostrar essa contradição foi exatamente uma das revistas que mais enaltecia o status de mulher desejada: a Playboy.

Toda noite, antes de se abraçar com Bebeto, bonequinho de penas que a acompanha desde a infância, e partir rumo aos sonhos, a manequim Xuxa senta-se diante de um caderno espiral e escreve os pensamentos e fatos amorosos que lhe agitaram mais um dia. Uma rotina desde fevereiro do ano passado e que já está no terceiro volume, sempre cadernos de 100 folhas, onde coloca sua letra redonda, pacientemente desenhada. É um diário lírico, sem descrições eróticas, detalhes excitantes. (...) É nele que Xuxa despeja seu estilo de frases curtas, como o de Agatha Christie, sua escritora preferida. São frases soltas que às vezes não se ligam com as anteriores, mas que permitem que uma jovem de 19 anos se mantenha romanticamente unida ao homem amado.
(Trecho extraído da matéria “o Vulcão em Repouso”, da Playboy, em abril/1982)

Pronto! Abriu-se a porta da curiosidade pro mundo. Os diários de Xuxa não eram segredo e passaram também a ser objeto de cobiça, tal e qual acontecia com a imagem de sua dona.
Demorou um pouco, mas a concorrente da Playboy, a revista Ele Ela,  conseguiu a exclusividade e em maio de 1983, anunciou toda orgulhosa em sua capa “O Diário de Xuxa”. Óbvio que a revista teve que escolher alguns trechos para publicação ou precisaria de uma edição inteira só para isso – o que não seria má ideia...
As principais coisas estavam lá, tudo que interessava no momento: como a loira entrou para o mundo da moda, o encontro com Pelé e o início do namoro, o glamour e os percalços da vida de modelo, projetos.

Revista Ele Ela (maio/1983): exclusividade na publicação dos relatos


“Vou lhe dar abrigo, se você quiser, quando surgirem seus primeiros raios de mulher...
Direto de um túnel do tempo, vamos ver o que pensava a jovem Xuxa, que ainda nem imaginava se tornar a estrela da TV, Rainha dos Baixinhos, cidadã engajada e, sobretudo, muito mais amada que cobiçada.


“Um cara me seguiu, quando saí da ginástica com minha irmã, Mara. Ele levava revistas embaixo do braço. Sempre fui tarada por revistas e fiquei olhando. Minha irmã, tão protetora como minha mãe, achou que era paquera. Depois soube que o cara se chamava Waltinho e trabalhava no arquivo cor da Manchete. Ele me seguiu até em casa, tomou coragem e bateu na porta. Mostrou identidade para minha mãe e disse que na Manchete estavam procurando modelos. Sua função não era, mas achou que gostariam de mim. Mãe lhe deu uma foto minha, aos 13 anos, no carnaval em Coroa Grande. Não tenho muitas fotos, pois nunca gostei de fotografia por causa dos meus dentões, bochechas e sardas.

A foto entregue a Waltinho e a primeira foto publicada na revista Carinho

Dois dias depois:
“Na saída da ginástica, me telefonaram da revista Carinho. Perguntaram se eu queria fotografar. Decidi tentar. Será sem maquilagem. Em casa, a família se reuniu, fez restrições. Disse que esse trabalho não é bem visto. Mas estou começando a querer.

Mais três dias:
Cortei o cordão umbilical esta tarde. Me pediram para fotografar maquilada e quem me preparou foi Tomas Dourado, no apartamento em Copacabana. Mãe não me deixou ir sozinha. Fiquei incrível; ele raspou minhas sobrancelhas, o que me deixou muito diferente. Quando me vi, quase morri de rir. Na Kombi não deixaram mãe entrar porque não fazia parte da equipe. Como só tenho 16 anos, mãe disse que eu não iria sem ela e me chamou para irmos embora. Foi terrível. Eu estava toda maquilada, na maior expectativa. Olhava para mãe e para a Kombi. Sempre fui muito ligada à família, não saio sem eles, escuto o que dizem. Mas nesse momento senti que tinha que optar. Disse para mãe que eu iria, podia estar errada, mas tinha que tentar. Ela ficou lá chorando. Senti que um pedaço de mim ficava com ela.”


“Saíram minhas fotos, com a surpresa: fui escolhida manequim da Carinho. Já estou fazendo minhas primeiras fotos, que estão incríveis. Desde pequena sempre gostei de fazer pose. Dá para notar olhando minhas fotos de menininha. Eu ficava folheando revistas estrangeiras, tipo Photo, observando como as modelos se portavam. Agora que estou fotografando profissionalmente, já tenho um jeitinho de fazer boquinha, de empinar o bumbum. Os fotógrafos notam isso. Nílton Ricardo foi o primeiro a me fotografar. Ele está me dando muitas dicas. Quando ele disse “dá o ombro”, fiquei assustada porque não sabia como fazer. E como é botar para fora a saboneteira? Como é fazer cara de tesão? Se até os 11 anos eu ainda pensava que beijar engravidava?! Acho que agora, com 16, não mudei muito. Me acham ingênua.



O Fernando Pernambuco está me ensinando coisa ótimas. Como me maquiar, como realçar os olhos, como usar o lápis na boca. Saiu minha primeira capa para a Carinho Romance. Eu com Aroldo, um modelo, estou com os cabelos molhados. Fiz também meu primeiro desfile, para Jordach.
Conheci Luiza Brunet, ficamos amigas. A amizade está crescendo. 


Estamos fazendo quase todos os trabalhos juntas, porque quando me chamam para alguma coisa eu logo indico a Luiza, e ela a mesma coisa. Há muita troca entre nós. Ela me ensina muita coisa; o que aprendo também passo para ela.”












“Fiz a capa para a Manchete com Pelé, a Luíza, Márcia Brito e uma morena de Brasília. A matéria vai se chamar Minha Liberdade Vale Ouro. Pelé perguntou meu nome, eu contei que tenho 17 anos e sou gaúcha. A turma combinou de ir à noite ao Canecão, assistir ao show da Elis e esticar no Régine’s. Disse para Pelé que não poderia ir, só se o pai e mãe fossem juntos, porque eu não saía sozinha. Disse que ligaria para o pai e ligou, mas o pai desligou o telefone quando ele disse quem era. “E aqui é a Rainha Elizabeth”, pai respondeu. Quando soube que era realmente Pelé, pediu desculpas, mas só me deixou sair com meu irmão Cyrano que ficou o tempo todo no carro e não queria descer. No Régine’s mandei-o para casa. Ele não queria, porque mãe não iria gostar. “Deixa que eu assumo”, eu disse. Pela segunda vez cortei o cordão. Mãe não dormiu até que eu cheguei, às quatro da manhã.”




“Foi uma emoção me ver na capa de ELE ELA. É a primeira revista de grande porte, sem ligação com moda, que me destaca. Já saí em umas seis capas antes, mas nada parecido. Na foto, estou seminua. Não nua total porque quando fotografei ainda não tinha 18 anos. Com isso armei a maior confusão: todas as revistas me pediam o nu, mas, como eu era menor, prometi para depois do aniversário. Agora, fotografei para Status e dois dias depois para Playboy. As duas revistas ficaram brigando e ELE ELA largou primeiro. Eu, fugindo de tudo, vim para Nova Iorque. Ganhei a viagem de Pelé, de aniversário. É minha primeira viagem ao exterior, fico três meses fora.”
“Fotografar nua não me perturbou. Curto o lance de mostrar mais o meu corpo, é o meu trabalho. Fazer fotos sem roupa não é fácil. É mais difícil do que se pensa. Não tem lugar para pôr as mãos. Mas é preciso que você goste muito de você para fazer um trabalho desse e conseguir expressar alguma coisa. É como trabalhar em cinema mudo, porque é preciso transmitir no olhar a roupa que está vestindo. Sem roupa, vou expressar o quê? Em casa, a nudez sempre foi vista como uma coisa natural, cada um sempre andou como quer, nada de esconder a coxa quando aparecia. Nunca houve uma permissividade indiscriminada mas vemos a nudez como uma coisa natural. Isso me facilitou na forma de aceitar o corpo, de acha-lo bonito.”



“Passei dias horríveis em Cleveland. Como imaginar que pudessem fazer uma coisa dessas? Imagino quantas modelos já passaram por coisa semelhante e escondem com vergonha. O trabalho da modelo é fotografar, mas tem pessoas que confundem. Meu contrato previa dois dias de trabalho e, quando cheguei a Nova Iorque, um carro me levou a Cleveland. O motorista, que falava português, ficou assustado quando me deixou na porta do hotel e eu perguntei sobre o trabalho. Disse que estava sabendo de coisa diferente, mas não explicou qual. Meu sangue esquentou, fiquei assustada, não vi mais nada na minha frente e pensei que ia desmaiar. Fui para o quarto do hotel e me tranquei. Era o mais seguro. Telefonava para o pai e a mãe a todo instante. Chorava, sapateava, gritava. Não atendia ninguém. Quando ligaram dizendo que eu ia receber uma vista, falei que mandava quem entrasse ali. Queria ir embora, estava com medo e não sabia como agir. Como não falo inglês, não saberia pedir um táxi nem tomar o avião em Nova Iorque. Papai dizia para eu me acalmar. Só saí dessa por causa do Pelé. Ele estava viajando, mas ficou sabendo e incumbiu a Warner Communication de me resgatar. Fui escoltada até o avião e papai me esperava no Brasil. Enquanto estive lá escrevi sobre tudo isso, mas rasguei, de raiva. Os dias que passei no hotel, me alimentei só de pipoca. Agora vou ficar uns tempos sem ver pipoca. Estou enjoada.”





“Passei quase duas horas experimentando roupas, dei três entrevistas para jornais, e o que me acontece depois? Abri, como sempre faço quando querem, com ginástica de solo. Pedi as roupas para desfilar e um cara me disse, na frente de mãe, que meu trabalho seria apenas entrar com uma camiseta com o nome do patrocinador, e trocá-la por outra, com o nome do outro patrocinador. Queria bater no rapaz e ele ainda me chamou de antiprofissional. Não me importo com o nudismo. Acho que modelo deve saber por e tirar a roupa. Lá fora a modelo começa nua e vai vestindo a roupa, mas aqui ainda não aceitam isso. Então não faço.”



“Um grupo de esteticistas mostrou-se disposto a abrir uma boutique no Rio. Fiquei encantada. Um lugar enorme, como não existe no Brasil, onde a mulher sai vestida, dos pés à cabeça. Eu só devo entrar com o nome. Se for como me mostraram, será um mundo à parte, completo, com espaço até para desfiles. Quando eu voltar à Califórnia, acertarei os detalhes. Mas se não der, talvez eu lance uma linha de maquilagem antialérgica. 

Linha de maquiagem antialérgica: um dos projetos da modelo Xuxa
O sol de verão que temos no Rio, em quase todo o Brasil, não acaba mais, dura o ano inteiro e massacra a pele da gente. E quem pode pagar produtos importados? Me agradam demais os produtos naturais e vou adorar ter uma linha com meu nome.”




“Fui a um hipermercado aqui perto com Wanda. Fiquei assustada porque no Rio ando normalmente, faço compras, vou às lojas. Mas aqui o mercado parou quando fui reconhecida. Não pude comprar mais nada. Pior ficou quando o Dico chegou, para nos buscar. Foi o caos! Até amassaram o carro dele!”




“O que está escrito em mim, comigo ficará guardado...
Além de publicar trechos dos cadernos, a revista ainda contou que Xuxa tinha planos de lançar uma compilação em livro. Como queríamos que isso tivesse dado certo, não é mesmo?

“A curta trajetória que Maria da Graça Meneghel, a Xuxa, percorreu em direção ao sucesso vai ser contada na íntegra. Recorrendo ás anotações de viagens, recordações e até à memória de sua mãe, dona Alda, Xuxa pretende lançar um livro.
O livro deve abordar as muitas facetas da personalidade cativante da menina que ainda conserva dentes de leite e muita ingenuidade; se alimenta de comida natural, dorme cedo e não gosta de badalações.


O livro não saiu, mas nem por isso as histórias deixaram de ser contadas e recontadas


“A vida se abrirá num feroz carrossel e você vai rasgar meu papel...
Anos depois, em 1987, durante uma entrevista – também para a Ele Ela – o repórter Renato Sérgio perguntou:
Ele Ela: Continua escrevendo seu diário?
Xuxa: Parei. Não era bem um diário, mas um registro de pequenas coisas que aconteciam, era mais um desabafo. E essas anotações pararam quando eu e o Dico, quer dizer, o Pelé, paramos, há um ano.


“A vida segue sempre em frente, o que se há de fazer?...
Hoje, mais de 30 anos passados, podemos conferir o quanto a menina louca por revistas estava mesmo destinada a ser dona das capas, dos sonhos de marmanjos - e do coração de baixinhos anos depois. A empolgação com as primeiras fotos, a descoberta de um amor juvenil...  Reações comuns de uma garota extraordinária.



Ah, já que a letra de O Caderno – composição de Toquinho – deu o tom do nosso post, fica aqui o nosso apelo, Xuxa:
Só peço a você um favor, se puder:
Não me esqueça num canto qualquer.”

Procura direito aí nos seus guardados, loira... Vai ter assunto para uns dez vídeos no estilo “Direto do Baú”. Fica a dica pro Canal X  😉



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